Avé, ó Baco!

O mundo não pára
E se não pára:
Avé, ó Baco.
Levo as mãos à cara
Que cheiram a tabaco
(E ao perfume dela, que perfume!,
Que não sai por mais que fume).
Peço à sorte que passa,
Que no seu enlace,
Me abrace e saiba porque me abraça!
Pois então, senão,
Somos já todos cadáveres dentro d'um saco.
Porque o mundo não pára.
E se não pára:
Avé, ó Baco!

Fecho


Encosto-me ao balcão para ver do que é feito:
Sólida madeira curada, sem defeito
E aguardente entornada.
-Que vai ser?- pergunta a criada.
Que haveria de ser? O custume.
Um trago depois e contando dois,
-Alguém tem lume?

Sob céu de lua vaza,
Volto para casa:
Habitáculo pequeno e
Ar rarefeito.
Lixo ameno espalhado a preceito.
O desconforto aperta-me,
Acarinha-me, Evita-me,
Cheira-me porque cheiro
Ao mesmo cheiro do lixo do meu quarto
Que me abraça
E de que estou farto!






 Bom dia!, diz-me um sem-abrigo que foi a pessoa mais abrigada que conheci hoje. Uma senhora, muito cordial, mandou-me endireitar as costas.
  "Aqui diz que não ficou bem".
  "Ah, não faz mal. Agora ponha aqui o dedo. São quinze euros". E a  máquina apita. Não se ouve mais nada senão barulho e conversas.
  "Não, estão a dar ali chapéus na Cintramédica", quando contorno o edifício, diz o Sr. Alberto, cujo nome é fictício porque não fiquei para perguntar. Uma senhora velhinha, coitadinha, ficou à espera que a ajudasse com o carrinho, coitadinho. Eu fiquei à espera que ela pedisse, pois esqueci-me que a cavalheirice abrange toda a gente, porque estava ocupado a fazer tempo para nada, à espera de ninguém.
  Convido-os para almoçar e ninguém responde. Não devem ter fome.
  Aqui, a "Sofia e a alma gémea" nunca mais se beijam enquanto o Francisco Lopes ainda pede votos e já três acidentes quase aconteceram. Há fila nos CTT, os autocarros circulam desgovernados, as gruas giram sobre si, como os astros, solicitam-se advogados, a Remax diz ter a solução para a crise e as pessoas olham para mim com um olhar estranho talvez por ser o único com coragem para se sentar a escrever num banco que range (e tenho dúvidas que isto seja mesmo um banco) no parque do Urbanismo (que não podia ser mais urbano) com as suas árvores urbanas já mortas ou em hibernação induzida e ainda não me virei para ver o outro lado!
  Isto hoje está monótono. Não sei se vai chover ou se é dos tubos de escape. Vou mudar de cenário.

8:43

Quase nove horas,
Sinto tudo menos eu próprio.
Porque é que demoras,
Estando eu já sóbrio?
Ou partiste por tal?
Deixaste-me mal
De consciência,
A vomitar palavras de dor sem ciência
E factos sem sentido.
Se oiço um gemido
É o meu estomago faminto,
A imitar o coração
Quando minto e digo que não
Quando o não é toda a verdade.

Deixas-me a saudade
De desaparecer ficando quieto,
Estremecer inquieto,
Ser certo.
Ver de perto
Cataclismos exóticos pelos pórticos do corpo.
Vou ser auto-salvo.
E salvo os erros semânticos
Nesta epopeia de três cânticos,
Far-me-ás o mal que preciso,
Deixando-me à sorte,
Enganando a morte
Porque me perco.
Serás o meu esterco.
Acabarás a cheirar bem e eu pronto a colher.
Acabarei maduro no chão duro:
Serei o fruto proibido de mim próprio.

O mal que há em ser-se pó
É que se é levado pelo vento.
E com isso, perde-se.
Eu tento
Mas a opurtunidade perde-se
E o vento passa, e de que maneira!
As asas, sem eira nem beira
Deixam a cabeça em poeira
Apenas com algo, que pergunta
"E quem és tu no meio disto tudo
E quem sou eu o meio de ti?"

Se eu fui, tu foste.

Foste a alma.
Tu, a calma.
Eu, a miséria.
Oh, minha cara,
De cara séria
Diz-me

Quem são os nomes que me chamam,
Coisas más ou boas...
Já tenho o corpo dorido
Do quase tudo atribuído
No meio de tantas pessoas.

E ninguém me conhece.
Olha, uma que sabe quem sou!
Mas não me conhece.

Mas vou,
Ter com ela.
Um pouco de conversa de janela
E assumo deliberadamente a posição de ir.
Seguir. Subir
Mais uma ladeira
E outras acções que terminem da mesma maneira
(E não só):
Em cansaço
De ser pó.