[Quem me dera estar bêbado]

Quem me dera estar bêbado.
Ter na ponta dos dedos tudo o que posso tocar.
Sentir na ponta da língua tudo o que posso dizer.
Falar por mim e pelo álcool,
poder lavar a cara com as mãos sujas do chão
onde me sento e ando à roda
a ver o que me rodeia para não me sentir só
nem são, que já me chegam as manhãs perdidas na noite anterior.
E ser superior a mim mesmo, uma fútil solução para me enganar
enquanto dou um ar de quem está certo
mesmo quando até estou perto.
É inútil estar sentado.
De pé, sigo pelo livro aberto
das ruas, ignoranto as palavras que não conheço
e os encontrões em que tropeço,
pelo trajecto certo
mal sabendo por onde me leva.
E p'lo caminho entrançado
mando um beijo à treva,
amiga fiel do embriagado,
e dou-lhe conversa
esperando um vice-versa.
Tenho na ponta da língua tudo o que lhe posso dizer.
Sinto na ponta do dedos tudo onde lhe toco.
E sem dizer nada porque estou rouco,
e sem lhe sentir nada porque estou dormente,
roubo-lhe a voz calmamente
para num gemido,
lhe dizer ao ouvido
que quem me dera estar bêbado.

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